O uso do gerúndio em Eça de Queirós e no Museu de Leiria
Publicado em 12/08/2025
RESUMO
O objetivo deste ensaio sobre o uso do gerúndio em Eça de Queiroz e no Museu de Leiria é desfazer o mito de que em Portugal não se utiliza essa forma nominal do verbo, ao passo que no Brasil ela é mais comum, a ponto de se falar em abuso brasileiro do gerúndio ou “endorreia” (Lapa, 1959:177). Para demonstrar que essa heterogeneidade de comportamento linguístico consiste mais na situação de uso (formal vs. coloquial) do que na sua literariedade, analisamos todas as formas gerundiais constantes no livro O crime do padre Amaro, escrito no séc. 19, bem como as encontradas no museu da cidade portuguesa de Leiria em 2023. Para ilustração do tema, foram selecionadas frases diversas com o gerúndio usado nos dois eixos da pesquisa.
INTRODUÇÃO
A minha inspiração para tratar de um aspecto muito particular do nosso patrimônio linguístico-cultural veio do XXVII Congresso Internacional de Antropologia de Ibero-América realizado em Leiria no ano passado (2023). E surgiu porque já em 1972, quando estive em Portugal pela primeira vez, comecei a observar as diferenças e identidades entre a língua portuguesa falada no Brasil e no continente europeu. Em Lisboa foram as crianças que me chamaram a atenção ao usar os pronomes pessoais oblíquos lindamente: “vou buscá-los, quer conhecê-la?, não consigo entendê-lo”. Devo anotar que toda língua transplantada é mais arcaizante que a original, por isso é que no Brasil usamos coloquialmente “vou buscar eles, quero conhecer ela...” – trata-se de um arcaísmo (utilização de palavras ou construções sintáticas da linguagem antiga, falada por nossos colonizadores).
Também observei, naquela ocasião, que meus interlocutores não usavam o gerúndio, mas sim o infinitivo em frases como: “estamos a governar, a saborear um caldo; ele está a fazer as contas”. E daí ficou a impressão – até eu me tornar professora de português anos mais tarde – de que o gerúndio tinha sido banido além-mar. Esse engano só começou a se desfazer com a leitura de O Primo Basílio e outros livros de Eça de Queirós em décadas passadas.
As diferenças de ordem sintática entre a língua brasileira e a portuguesa, como é o caso do gerúndio, não significam incompreensão do conteúdo falado, problema que pode ocorrer com as questões fonéticas ou vocabulares, sempre de maior peso. Contudo, resolvi esclarecer agora este assunto, de modo que não se propague mais a ideia errônea que eu tive e que outras pessoas possam ter.
A autora na rua Eça de Queiroz, no centro histórico de Leiria. [foto]
O USO DO GERÚNDIO EM EÇA DE QUEIRÓS
Verifiquei o emprego do gerúndio em várias obras de Eça de Queirós (1845-1900), mas selecionei “O crime do padre Amaro” justamente por ter sido criado quando este grande escritor foi o Administrador do Concelho de Leiria, em 1870/71. O livro foi inicialmente publicado quatro anos mais tarde, em 1875, e o seu sucesso contínuo se constata nas dezenas de publicações desde então. Neste trabalho utilizamos uma edição de 2020, com 400 páginas.
Em 379 páginas do texto integral do romance, encontramos 1.516 gerúndios (média de 4 por página). Só na pág. 75 aparecem 10 gerúndios. Seguem-se exemplos de uso abundante:
- Ele sentava-se, exalando um profundo ufa!: “Vá lá a gotinha do café”, e batendo no ombro do pároco, olhando para S. Joaneira: –
- ... e que é necessário abrandar, rezando e jejuando, ouvindo novenas, animando os padres.
- Falava baixo, sorrindo, numa língua áspera que Amaro não compreendia, cerrando e abrindo o seu leque preto; e o rapaz louro, bonito, escutava-a retorcendo a ponta de um bigode fino, com um quadrado de vidro entalado no olho.
Sobre o gerúndio
Antes de prosseguir com outros exemplos retirados do livro “O crime do padre Amaro”, vamos destacar alguns pontos teóricos desta forma nominal do verbo terminada em -ndo, para melhor compreensão do leitor interessado mas que não tenha familiaridade com este tema.
O gerúndio tem as seguintes características:
- apresenta o processo verbal em curso
- não exprime por si nem o modo nem o tempo verbal
- desempenha funções exercidas pelo advérbio ou pelo adjetivo
- condensa duas ou três palavras numa só
- já existia no Latim (particípio ativo).
Naturalmente, há que se distinguir o bom do mau emprego gerundial. Vale dizer que ele é muito apropriado nos casos em que se necessita transmitir a ideia de movimento, de progressão, duração, continuidade.
Para que se possa apreciar a riqueza estilística do gerúndio de que se valeu Eça de Queirós, selecionamos frases do livro que ilustram bem os diversos usos do gerúndio simples (sozinho) e do gerúndio composto (com verbo auxiliar, ou seja, numa locução verbal), as quais são apresentadas depois de breve explicação gramatical sobre cada tipo de uso.
I. O gerúndio simples
- No início do período
Ação imediatamente antes da indicada na oração principal:
- Notando então a citação repetida das palavras do abade Ferrão, Amaro perguntou se ele costumava vir vê-las. [= quando notou / ao notar]
- Julgando então que conhecia a fundo a existência, deixou crescer as suíças. [= no momento em que julgou / ao julgar]
- Ao lado do verbo principal – com vírgula
Ação imediatamente posterior:
- E entraram na igreja, persignando-se. [= e persignaram-se]
- Amélia baixou a cabeça, fazendo-se pálida. [= e se fez pálida]
- E daí a pouco dormia serenamente, sonhando que estava na sua casa.
- Felizmente a noite estava tenebrosa e quente, anunciando chuva.
- Mal – respondeu ele com voz triste, sentando-se.
- Ao lado do verbo principal – sem vírgula
Denota meio, modo ou instrumento:
- Hércules pela força – explicava sorrindo –, Frei pela gula.
- Ora, deixe lá! – disse ela fazendo um indolente gesto de negativa.
- Se os colegas decidem – disse Natário curvando-se –, vou.
- Estou tão cansada! – respondia Amélia apoiando-se nas costas da cadeira.
- Oh, senhora! – disse o cônego rindo-se.
- Decerto – disse João Eduardo mordendo o bigode.
Indica ações simultâneas (or. adverbial de tempo):
- E, passeando pelo quarto, suava de angústia. [enquanto passeava, suava]
- E desceu devagar, palitando os dentes.
- Boa gota! – acrescentou, saboreando o seu cálice de Porto.
Tem a função de oração adjetiva:
- O aparatoso painel representando o marquês de Pombal, de pé num terraço sobre o Tejo, expulsando com o dedo a esquadra inglesa, acanharam como sempre João Eduardo. [= que representava]
- Viam-se naquele ano famílias esfomeadas indo à câmara pedir pão. [= que iam / estavam indo]
- E no silêncio sentiam-se os carros de bois rolando, com solavancos. [= que rolavam/ estavam rolando]
II. O gerúndio composto
Indica ação durativa (que também se pode denominar de presente contínuo ou passado contínuo, tradução do inglês “present/past continuous”):
- O cônego, que estava escrevendo, caiu como uma massa fulminada para as costas da cadeira.
- E defronte iam-se iluminando uma a uma, com uma luz soturna, as janelas do hospital.
- Estava justamente pensando em si, isto é, estava pensando no clero em geral...
- Foram subindo a rua dos sobreiros, calados.
- Depois uma saudade indefinida, profunda, foi-o amolecendo, e chorou muito tempo.
- Vinha-lhe aparecendo distintamente a consciência pungente da sua culpa.
- Contou-lhe então uma história difusa que ia forjando laboriosamente.
- Em cima, Amaro estava contando rapidamente a Amélia o grande plano.
- Assim a ia curando daquela paixão mórbida.
- O padre Amaro foi trotando pela estrada, que já escurecia, para a estação de Chão de Maçãs.
- E Amélia, resignando-se à vontade de Deus em tudo, ia deixando cair as saias.
Ação durativa com o infinitivo
Entretanto, pelo fato de retratar fielmente, nos diálogos, a linguagem coloquial, sempre que os personagens expressavam uma ação durativa (passado contínuo, no caso) equivalente à exposta acima, Eça de Queirós usava o infinitivo com verbo auxiliar, em vez do gerúndio. Assim, constam abaixo todas as falas com locução verbal de infinitivo que encontramos ao longo do livro:
- – Ora vá, vá, que você deve estar a cair de fome, Amaro!
- – Aí esteve a falar, coitado...
- – Foi a pobre de Cristo que esta tarde começou a esmorecer, o senhor doutor veio, diz que estava a acabar e a senhora mandou pelos sacramentos.
- – Pois olhem, sinto-me a desfalecer...
- – Algum barulho? – perguntou-lhe Amélia.
- – Olá, menina Amélia! Não, alguma brincadeira de soldado. Atirou-lhe um rato morto à cara, e a mulher está a fazer aquele espalhafato.
- – Menina Amélia, sabe? Está-me a dar um grande desgosto com essas maneiras com que trata o sr. Padre Amaro.
O USO DO GERÚNDIO NO MUSEU DE LEIRIA
Igreja e antigo Convento de Santo Agostinho, sede atual do Museu de Leiria. [foto]
No domingo depois do Congresso, a visita ao belo e impecável Museu de Leiria me proporcionou um contentamento ímpar: fui ler os painéis dispostos na galeria do antigo claustro para conhecer a história da cidade e, surpresa, encontrei naqueles textos descritivos uma abundância de gerúndios!
A linguagem moderna e atual utilizada nessa exposição museológica demonstra que o uso do gerúndio não se restringe à literatura do século 19, como visto em Eça de Queiroz, mas continua a figurar em textos contemporâneos, desde que formais.
Para exemplificar o meu argumento, transcrevo a seguir algumas frases contantes em alguns dos painéis em exibição, nas quais destaco o gerúndio em variadas formas. Todas as fotos que ilustram esta apresentação foram tiradas por mim despretensiosamente, pois só imaginava utilizá-las no âmbito pessoal. Mas elas podem dar um ideia do contexto em que se acham as orações gerundiais no Museu de Leiria.
1 A CIDADE E A DIOCESE: LEIRIA NA ÉPOCA MEDIEVAL E MODERNA
- Leiria encabeçava uma região agrária fértil e rica, atraindo colonos e habitantes. A casa de Vila Real, donatária de Leiria desde 1463, assim como os bispos da cidade, impulsionaram obras urbanísticas e monumentais, destacando-se a Sé Catedral, os conventos de Stº Agostinho e dos Capuchos, o Santuário da Senhora da Encarnação ou o de Jesus dos Milagres...
2 Colinas semelhantes à do Castelo de Leiria passam, com o I milénio a.C., a desempenhar um papel relevante no controlo da região, contribuindo para definir uma matriz de povoamento que levou à fundação de povoados como o de Collippo.
3 A CIDADE DE COLLIPPO
- No morro do Castelo de Leiria foram descobertas diversas estruturas de época romana que demonstram que o povoado indígena aqui situado foi romanizado, existindo inclusive vestígios de estuques pintados, que indiciam a existência de um importante edifício. Neste lugar foi descoberto o mosaico paleocristão com a referência a Orfeu e à lenda que o envolve, reforçando a importância de existência da ocupação deste período.
4 Os indícios da presença judaica em Leiria são bastante antigos.
Os primeiros documentos escritos remetem para o início do século XIII, não havendo motivos para se duvidar de uma presença anterior, ainda que não comprovada documentalmente.
5 Falecida a última religiosa do Convento de Sant’Ana, em 1880 [...] Para além da abertura da Rua José Jardim, foi projetada por Ernesto Korrodi a implantação de um mercado, bem como a abertura da nova avenida e rotunda, ocupando os antigos terrenos do convento e cerca.
6 CONVENTO DE SANTO AGOSTINHO
- Por ação de D. Frei Gaspar do Casal, segundo bispo de Leiria e eremita de Santo Agostinho, contrariando a opinião dos cónegos da Sé, nasceu assim um dos mais importantes complexos monásticos de Leiria...
O convento de Santo Agostinho é uma das mais prolongadas marcas da ligação do território leiriense à figura do bispo de Hipona, assumindo a responsabilidade de que esta figura insigne do pensamento ocidental seja ainda hoje tomada como patrono da diocese de Leiria-Fátima.
7
- Tendo por base a Planta cotada da Cidade de Leiria, levantada em 1918-19 pelo Tenente-Coronel Alexandre Baptista da Costa Pereira, foram apresentadas após concurso duas propostas de Plano de Melhoramentos...
Nenhum destes estudos teve uma aprovação formal, conforme parecer de Ernesto Korrodi, presidente do Júri do Concurso, tendo no entanto a Câmara Municipal adquirido os dois por se complementarem, servindo de base para algumas intervenções futuras...”
8
- Em 1902, Tito Larcher copia a planta desenhada no início do século XIX, pelo Major Manoel Joaquim Brandão de Sousa, datada de 1816, designando-a como Planta da Cidade de Leiria no anno de 1809. A planta que aqui se reproduz é pois cópia da planta de 1816, encontrando-se o original no Arquivo Distrital de Leiria. É uma representação da cidade com erros de escala, mas que permite perceber a sua morfologia e organização, tendo sido transposta para a escala 1:1000, no âmbito da Exposição “O Saque da Cidade de Leiria...
9
- O Ante-Plano de Urbanização elaborado pela Hidrotécnica Portuguesa, tendo por base a cartografia aerofotogramétrica de 1966, é acompanhado de outros estudos...
10 A EXPOSIÇÃO “O SAQUE DA CIDADE DE LEIRIA”
- Este ciclo prolonga-se pelos anos 80 e 90 e vem a configurar o maior crescimento em mancha de óleo da cidade ocupando, com operações de loteamento, as antigas quintas e casais que envolvem a cidade dos anos 50.
11
- Em 1982 é publicado o primeiro diploma sobre Planos Diretores Municipais, iniciando-se um processo de elaboração a nível nacional destes Instrumentos de Gestão Territorial.
12
- A administração pública corre atrás dum desenvolvimento induzido pela iniciativa privada, transformando o solo outrora rural em solo urbano, apropriando-se aquela, avidamente, da mais-valia produzida pela alteração artificial de estatuto do território.
As operações de loteamento urbano, às quais alguém chamou “lepra do urbanismo”, vão preenchendo o espaço com maior ou menor intervenção do município...
13
- É assim que surge a possibilidade de se candidatar Leiria à primeira experiência de requalificação ambiental e urbana, integrando o Programa Polis com as primeiras 10 cidades. Para além das ações no terreno, ficou um plano estratégico que veio a ser desenvolvido nos anos seguintes, completando elos de ligação e reforçando pontos...
O gerúndio no português arcaico
Voltei deliciosamente no tempo ao chegar à altura do setor “Pinhal de Leiria” (Mata Nacional), no qual se homenageiam leirienses que se distinguiram ao longo da história no campo das artes. Ali me detive num curto texto e em dois poemas escritos em português arcaico (sécs. 12 a 16, cf. Coutinho, 1968, p. 57), onde destaquei o uso desse recurso linguístico tão expressivo que é o gerúndio.
A |
B |
C |
- FORAIS DE LEIRIA (A)
1510
Reformando os antigos forais, D. Manuel I outorga foral a Leiria,
sendo antecedido apenas pelos de Lisboa e Santarém.
- AFONSO LOPES VIEIRA (B)
Catedral verde e sussurrante, aonde
a luz se ameiga e se esconde
e aonde ecoando a cantar
se alonga e se prolonga a longa voz do mar
- FRANCISCO RODRIGUES LOBO (C)
Fermoso rio Lis, que entre arvoredos
Ides detendo as águas vagarosas,
Até que umas sobre outras de invejosas
Ficam cobrindo o vão destes penedos.
Considerações finais
Depois de longa pesquisa e da elaboração deste artigo, sinto-me definitivamente segura para afirmar que o gerúndio, sendo bem colocado, traz uma vantagem estilística sobre outros processos redacionais, senão ele já teria caído em desuso tanto no Brasil quanto em Portugal (não pesquisei em outros países lusófonos).
A diferença consiste nas instâncias de uso do gerúndio: enquanto os brasileiros lançam mão das formas gerundiais tanto na fala cotidiana quanto nos textos literários ou cultos, sem que isso seja objeto de questionamento sobre certo ou errado, os portugueses adotam a forma nominal do infinitivo na sua linguagem falada e escrita mais pessoal, de todo dia, ficando o gerúndio para a esfera mais formal da língua.
Encerro ilustrando essa condição de uso linguístico com os dizeres de um cartaz publicitário que vi na cidade de Leiria: “Governar a pensar as pessoas”. Se fosse no Brasil, o mesmo anúncio estaria assim: “Governar pensando as pessoas”. São diferenças que paradoxalmente nos unem, laços que nos irmanam há séculos!
Referências bibliográficas
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BUENO, Francisco da Silveira. A formação histórica da língua portuguesa. 2.ed. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1958.
COUTINHO, Ismael de L. Gramática histórica. 6. ed. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1968.
CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
DIAS, Augusto Epiphanio da Silva. Syntaxe histórica portuguesa. 4. ed. Lisboa: Livraria Clássica Edit., 1959.
LAPA, Manuel Rodrigues. Estilística da língua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1959.
PIACENTINI, Maria Tereza de Queiroz. Não tropece na língua: lições e curiosidades do português brasileiro. Curitiba: Bonijuris, 2012.
PIACENTINI, Maria Tereza de Queiroz. Só vírgula: método fácil em vinte lições. 4. ed. São Carlos, SP: EDUFSCar, 2021.
QUEIRÓS, Eça. O crime do padre Amaro. Jandira, SP: Principis, 2020.
Apresentação feita no 28º Congresso Internacional de Antropologia Ibero-Americana, realizado em Salto Veloso-SC, de 27 a 30 de maio de 2024