Não Tropece na Língua

Número: 010
Data: 03/01/2018
Título: TODA (A) FAMÍLIA, TODO MUNDO, TODO O BRASIL

Modernamente, no Brasil, mais do que em Portugal, nota-se uma diferença semântica entre toda família e toda a família.  Distingue-se um caso de outro apenas pela inserção do artigo definido: de “qualquer família” o sentido passa para “a família inteira”. Exemplo:


Revistavam todo homem que ali passasse. [= todos os homens]

Revistaram todo o homem. [= o homem por inteiro, de cima abaixo]


O pronome indefinido TODO + substantivo traduz a ideia de “qualquer, cada”. Implica o conjunto dos seres em questão. Igual ao plural: todos os. Trata-se de fenômeno linguístico em que o singular vale pelo plural, pela totalidade.


Todo ser humano tem alma.

Nem todo terreno é fértil.

O coração de todo brasileiro está com a seleção canarinho.

Toda atividade que os órgãos judiciais exercem, excluindo a função jurisdicional propriamente dita, é administrativa.

Toda autoridade administrativa deve respeitar as leis.


O adjetivo TODO + O + substantivo tem o sentido de “inteiro, completo”. Implica inteireza ou plenitude. O artigo é obrigatório.


Todo o terreno (que pretendemos comprar) é fértil.

Disse nosso diretor que toda a escola receberá pintura nova e outras benfeitorias.

Queimou toda a casa.


Nestes casos é até mais comum a posição inversa: “Queimou a casa toda, capinaram o terreno todo, a escola toda desfilará, viajou o ano todo, dorme o dia todo” etc.
 

PLENITUDE

Ao usar um substantivo abstrato como afeição, carinho, apreço, capricho, humildade, força etc., coloque o artigo para demonstrar como é pleno, completo, esse sentimento ou qualidade:


Com todo o amor, despeço-me.

Li sua carta com toda a atenção.

Você tem todo o direito de não acreditar nessa afirmação.

Mostra em seu ateliê todo o vigor da sua arte.

Manuseia os utensílios com todo o zelo, como se fossem de cristal.


ARTIGO FACULTATIVO

Por admitirem dupla interpretação (qualquer ou inteiro), é optativo o uso do artigo nas seguintes expressões:


Em todo (o) caso, me submeterei ao teste.

Encontramos lixo em toda (a) parte, a toda (a) hora, todo (o) tempo.

Estaremos lá a todo (o) custo, todo (o) preço, todo (o) risco.


A bem da verdade, é facultativo o artigo no emprego de todo = qualquer. Também seria correto escrever, v.g., “a impessoalidade deve nortear toda a atividade administrativa”. Como advertiu Celso Luft: “Na dúvida, empregue tranquilamente todo o, com artigo, que estará sempre certo. Todo o vale para todos os casos. Quando se erra, é pela falta do artigo; nunca o inverso”.


TODO MUNDO

Sem o artigo, é expressão de uso coloquial, significando “a gente, todos nós, as pessoas em geral”:


Todo mundo ficou perplexo com a bomba no Senado.

Quase todo mundo perde com a inflação.

Nem todo mundo aplaudiu o esquema de Luxemburgo.


Com o artigo, quer dizer “o mundo inteiro, a população mundial”:


Todo o mundo ocidental conhece as histórias dos irmãos Grimm.

Esperamos que todo o mundo se una pela paz.


TODO O BRASIL, TODA SANTA CATARINA

No caso de estados e países, o artigo é usado somente quando ele é de praxe diante desses nomes:


A exoneração do ministro deixou todo o Brasil em suspense.

Achamos todo Portugal uma fábula.

Percorreu toda a Bahia a pé.

O viajante encontra um relevo acidentado em toda Santa Catarina.